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Ela subiu à tribuna e com veemência assim se pronunciou:
“Sr. presidente: os senhores estão falando do leite. Eu quero falar dos que mamam”.
E daí por diante, foi um descortinar da vergonha, do descalabro, do desrespeito que pontua a conduta desonrosa de deputados, que ao invés de serem os baluartes das conquistas populares, se tornaram predadores do bem comum.
A deputada, com seu indignado depoimento em plenário, escancarou a corrupção, que graça na Assembléia Legislativa do RJ e torna sua atmosfera irrespirável.
Ela foi corajosa e oportuna em sua intervenção, fez um mea culpa ao dizer que na Assembléia não tem santos ( aqui se tem um indício de que o que está ocorrendo excedeu todos os limites de condescendência).
O vídeo com o depoimento da deputada rodou a internet, provocou a troca de duras críticas aos parlamentares corruptos. Entretanto, chamou-me atenção, a necessidade de que haja alguém denunciando, dramaticamente, aquilo que nós já sabemos, para que então, por adesão, saíamos da inércia, da acomodação, da indiferença, para expressar aquele sentimento de indignação amalgamado com impotência, que permeia a nossa sociedade.
Somente a conscientização da força que temos enquanto cidadãos, nos conduzirá à busca dos meios disponíveis, para atuar junto aos poderes constituídos, exigindo correção, probidade e transparência no trato do bem comum.
Eis a importância da formação política: que além dos princípios e do conhecimento do estatuto partidário deveria incluir através de seminários e fóruns de debates, o conhecimento necessário para o melhor exercício da cidadania. Isso é atribuição primeira dos partidos políticos.
Eu assistia a TV. Câmara e pude ver ao vivo e a cores como tudo aconteceu. A partir daí, muitos e-mails me chegaram, com o vídeo da cena dantesca da Assembléia.
Assim, não pude me furtar a esta reflexão:
- O que nos faz eleger esses parlamentares corruptos e mantê-los no poder por consecutivos mandatos?
- Onde entra a responsabilidade dos partidos políticos, que cedem sua legenda e viabilizam tais candidaturas ?
E aprofundando esta reflexão , fui especulando dentro da minha vivência política partidária e me argüindo sobre:
- Quem são os mandatários que ajudei a eleger?
- Como vêm me representando?
- Se indignaram diante da denúncia da deputada?
- Sua atuação legislativa tem sido coerente com os princípios do partido, que o elegeu ou fez uso da legenda, como mero trampolim ao poder?
- Que candidatos o meu partido está me oferecendo nas eleições 2010?
- Que critérios partidários são considerados na estruturação da nominata?
- A experiência adquirida nas eleições anteriores, foram determinantes no aprimoramento dos critérios que regulam as atuais escolhas?
- O partido ouviu as bases na escolha dos atuais candidatos?
- Se as bases não foram ouvidas, de que forma os dirigentes responsáveis pelas nominatas e coligações responderão por suas escolhas?
A legislação eleitoral dispõe na forma da Constituição, sobre as condições de elegibilidade. Mas os partidos políticos não poderiam estabelecer condições próprias regidas estatutariamente, que determinasse escolhas mais acertadas?
Um aspirante a mandatário precisa de uma legenda, assim o partido político tem poder de vetar ou aprovar sua candidatura.
Caberia a investigação da vida do candidato, para saber, por exemplo, se ele tem boletim de ocorrência por alguma contravenção?
O histórico do candidato? Poderia ser construído, a partir de entrevistas seqüenciais feitas por equipe multiprofissional. Estaríamos avaliando o seu perfil principalmente, suas intenções, sua familiaridade com as diretrizes do partido, suas causas e sua plataforma (lutas, bandeiras,forma de governar e o que defende) e as suas chances.
Quanto a escolha de “famosos” mereceria uma avaliação de um colegiado sobre o custo- benefício de tal indicação, pois, em geral, junto com o seu contingente de votos traz, muitas vezes, um potencial de degradação da imagem do partido junto à sociedade e ainda fortalece um aporte na longeva tradição de “personalizar” a escolha das urnas.
Resumindo: esta reflexão quer focar, primeiramente, a responsabilidade dos partidos políticos e seus dirigentes no contexto da seleção dos pré-candidatos, que não podem continuar a usarem as legendas como mero trampolim ao poder.
A nominata é de especial importância para o partido e consequentemente, para a sociedade, por isso não pode ficar fechada numa só pessoa. O papel do coordenador político é fundamental, mas deve estar bem assessorado, para não fazer escolhas prejudiciais a todos :
Eu quero ter a certeza que o pragmatismo eleitoral não irá prevalecer, mais uma vez, sobre o meu direito de ter pessoas íntegras para votar.
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