Estava na UFRJ, resolvi num intervalo de aula abrir minha caixa de email. Lá estava a carta que me fora enviada pela Secretaria Geral do PHS, assinada pelo presidente e pelo secretário geral do partido, o assunto: A Tragédia de Realengo.
Tinha a meu lado minha amiga Sylvia, jornalista e cientista política .
Li a carta e a seguir pedi à Sylvia que a lesse também.
Sua reação, num primeiro momento, foi de indignação pelo oportunismo ali expresso, referiu-se a superficialidade da abordagem, a bajulação explícita à presidente Dilma e aos graves e clássicos sintomas de intolerância presentes na tragédia de Realengo.
Fiquei refletindo sobre a intolerância, sobre a nossa incapacidade de suportar a diferença, que nos impede de viver em paz com o outro. A resistência à diferença, o horror a ela, sempre foi causa ou pretexto de todos os genocídios da história da humanidade.
Meio sem jeito, expliquei-lhe a atual crise partidária. A traição à Phellipe Guédon e a destruição de seu trabalho de tantos anos. E que era a sua voz que guiava com propriedade o PHS, espelhando uma brilhante inteligência alicerçada em sólida cultura.
E hoje, sem o pensar correto de Guédon: O SILÊNCIO É O QUE SE ESPERA.
Há momentos em que o tempo, o espaço e todo o resto deixa de importar, pois , vive-se a sensação de que não há saída. A morte é por si só suficientemente absurda, principalmente, quando se expressa com contornos de crueldade, como na tragédia de Realengo. Aí, ela se impôs de maneira extremamente brutal e inexplicada e a reação é de perplexidade. Mas no afã de um oportunismo inaceitável, o autor da carta evocou uma tentativa rasteira e apressada de explicar o fato. Imiscuiu-se no ritual perverso de purificação coletiva, onde ao lado do horror genuíno, sincero e justificadíssimo de ver crianças feridas e mortas, contrapõe-se o rito sumário de desculpa a todos os males, menores ou maiores, gravíssimos( embora não tão evidentes) males de todas as ordens, vidas destruídas, assassínios psíquicos, grupos humanos desrespeitados em seus direitos por motivos torpes, envenenamentos provocados por substâncias ou palavras, despejos químicos ou morais, campanhas de ilusão coletiva, atos racistas, fascistas sexistas, etc
Tudo isso é parte de uma corrente que nunca cessa e que se apresenta em renováveis figuras e ações.
O foco hoje é o massacre, mas este ato extremo é parte de tudo que ocorre neste país.
A morte das crianças em Realengo, é parte de um todo, como outras matanças contra crianças em escola, contra crianças de rua, contra adultos indefesos, contra minorias, contra dissidentes, contra pobres, contra almas nobres.
Caberia nas mal traçadas letras da tal carta reflexões sobre como somos, como nos educamos, como vivemos, o que consumimos, como construímos nosso universo pessoal e afetamos o futuro dos outros, e se temos alguma chance , ainda, de nos enxergarmos como seres viáveis no mundo.
O nosso país ocupa a 7a. posição entre as potências econômicas mundiais, mas convivemos com total naturalidade com a tragédia social ao redor.
Estamos à frente de todos os países do mundo, menos seis deles, no valor da nossa produção, mas não nos preocupamos por estarmos, em 88º. lugar em Educação.
Somos o sétimo no valor do PIB, mas ignoramos que somos o 55º. país no valor de renda per capita, fazendo com que sejamos uma potência habitada por pobre
Segundo o Banco Mundial, somos o 8º. país do mundo em termos de concentração de renda, melhor apenas que a Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia.
Somos a 7ª. economia do mundo, mas de acordo com a Transparência Internacional estamos em 69º. NA ORDEM DOS PAÍSES COM ÉTICA NA POLÍTICA POR CAUSA DA CORRUPÇÃO. A NOTA IDEAL É 10, O BRASIL TEM NOTA 3,7.
Somos a 7ª. potência em produção, mas há décadas exportamos quase o mesmo tipo de bens e continuamos a importar os produtos modernos de ciência e tecnologia. Somos um dos maiores produtores de automóveis e uma das maiores populações de flanelinhas fora da escola.
Relatório da UNESCO mostra que a maioria dos adultos analfabetos vivem em 10 países, o Brasil é um deles.
Somos a 7ª. potência econômica, mas a permanência de nossas crianças na escola, está entre as piores do mundo. Além de que temos a maior desigualdade na formação de cada pessoa.
Somos a 7ª. potência, mas temos doenças como a dengue, a malária, o mal de Chagas e Leishimaniose.
Temos 22% da nossa populaçãosem água encanada e mais da metade sem serviço de saneamento. Segundo o IBGE, 43% dos domicílios brasileiros, 25% não são considerados adequados para moradia; não têm abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo.
Esse contraste entre uma das economias mais ricas do mundo e um mundo social entre os mais pobres só se explica porque nosso projeto de nação é sem lógica, sem previsão e sem ética.
( dados divulgados pelo Senador Cristóvão Buarque no jornal O GLOBO).