O que acontece num lar de pais adictos de classe média?
As regras são iguais àquelas impostas, nas comunidades em que impera o poder paralelo:
As crianças aprendem a se calar, a negar, a mentir sobre a realidade que as esmaga.
Convivem com negligência e com práticas silenciosas e aniquiladoras de seu psiquismo: dualidade de informações e de sentimentos, manipulação, ameaças claras ou veladas de retirada do afeto, repressão à sua natural espontaniedade, dissimulação, distorção induzida da percepção, desconfiança, violência, sentimentos de medo e aniquilamento....
Imaginem uma criança depender , inteiramente, de um adulto instável, que muda de comportamento a toda hora.
O pai gentil pela manhã é o pai violento à noite. A mãe que lhe serve a alimentação é a mesma que sob o efeito da abstenção; furta, destrói os colchões ondem as crianças dormem à procura das drogas, arranca palmilhas de tênis, destrói os armários, espalha farinha no chão sob o delírio de que seus esconderijos de drogas serão descobertos......
Essa é a silenciosa e dolorosa vivência diária de milhares de crianças da nossa classe média. Essas crianças não apresentam marcas físicas de agressões, mas estão perdendo a infância.
Essas crianças, estão ali ao nosso lado, vítimas também da nossa omissão. Da omissão de seus professores, das diretoras das escolas, dos vizinhos e dos seus parentes próximos, que fazem vistas grossas à sua dor. Mas , principalmente, da falta de aparelhamento do Sistema de Proteção à Infância e à Juventude.
É um viver triste e solitário destas crianças, elas não apresentam marcas de agressões físicas, as marcas são na alma. Elas fingem que não ouvem, elas fingem que não acontece nada, elas fingem todas as suas carências, elas tentam serem iguais em desempenho aos seus pares na escola, mesmo insones.
São crianças num processo de enlouquecimento diário. Elas são roubadas no seu direito alienável de crescerem e se desenvolverem num ambiente não hostil, que favoreça a construção de uma personalidade sadia e de respeito às suas potencialidades.
O Sistema de Proteção às Crianças e Adolescentes na forma que está estruturados, não dá conta desta problemática. Que com certeza tende a agravar-se.
Até agora não vi nenhum candidato expor qualquer proposta sobre esta situação tão urgente.
Há que se pensar numa política pública que atenda a esta situação, que vem sendo negligenciada pelas autoridades e instituições da área.
A sociedade tem que se mobilizar, a hipocrisia não pode prevalecer.
Hoje na grande maioria das famílias brasileiras, há pelo menos um caso de drogadição. Não há Resiliência que dê conta de tanta destruição!
Vera Britto
Nenhum comentário:
Postar um comentário